OS ANIMAIS SOFREM?… 2a REFLEXÃO: O CONFINAMENTO DE AVES E SUAS CONSEQUÊNCIAS

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Que a natureza é perfeita, que os animais se adaptam às condições climáticas, que as estações do ano têm grande influência sobre tudo no Planeta, todos sabemos. Então por que o homem insiste em modificar ambientes naturais?

Bem, comecemos do início…

No ano de 1945, com o término da II Guerra Mundial – um conflito que envolveu todas as grandes potências do mundo –, a Europa deu início a um movimento de recuperação econômica. A população começou a crescer rapidamente, sem que houvesse alimento suficiente para tanta gente e, assim, viu-se a necessidade de aumentar a quantidade e a velocidade da produção destes. Mas até a década de 1940 quase todos os países da Europa e de outras partes do mundo produziam alimentos por meio de agricultura familiar. As pessoas moravam no campo e lá obtinham seus alimentos, em pequena quantidade, que eram plantados/criados de maneira orgânica. Alguns pequenos produtores rurais começaram a observar que se restringindo o espaço e fornecendo alimentos mais calóricos (tais como grãos) aos seus animais, eles se tornavam capazes de produzir em maior quantidade, com menor espaço físico e em menos tempo. Assim, surgiram os CONFINAMENTOS. Confinar significa cerrar lotes de animais em piquetes, currais, baias ou gaiolas, onde toda a alimentação e água são fornecidas no cocho. Desde então, em detrimento do bem estar animal, criações industriais manipulam comida e luz a fim de aumentar sua produtividade.

Mas antes mesmo do término da II Guerra, nos EUA a primeira propriedade de criação industrial de frangos de corte já surgia, a partir de um incidente ocorrido em 1923. Uma pequena produtora rural chamada Celia Steele fez uma encomenda de 50 galinhas, mas lhe foram enviadas 500. Ao invés de devolver as aves excedentes, ela resolveu alocá-las em um galpão fechado durante o inverno, fornecendo-lhes os suplementos alimentares disponíveis no mercado naquela época. Privadas de sol e amontoadas em um galpão, as aves não sobreviveriam se não fossem as vitaminas A e D contidas em tais suplementos. Posteriormente, a criação de chocadeiras com incubadoras artificiais, milho híbrido subsidiado pelo Governo, a prática da “debicagem” (quando se decepa o bico dos pintinhos com auxílio de uma lâmina quente para evitar que selecionem alimentos – Foto 1), luzes e ventiladores automáticos, possibilitaram aumentar cada vez mais a densidade de animais nestas criações. E assim, em 12 anos, Celia já possuía 250 mil galinhas confinadas, o que hoje em dia se tornou um padrão na criação de galinhas. Os frangos de corte ficam em galpões fechados, com espaço de 930 cm2 por animal (Foto 2), recebem uma dieta proteica feita de grãos e são abatidos com aproximadamente 40 dias de vida. Uma curiosidade é que as galinhas não modificadas geneticamente de antigamente (antes de se criar o chamado “frango de corte” e a “galinha poedeira”) podiam viver por até 20 anos, mas hoje vivem pouco mais de um mês, além disso, sua taxa de crescimento aumentou em 400%!

Foto 1

Foto 2

Em criações industriais de galinhas poedeiras, as aves têm seu relógio biológico reprogramado, iniciando a postura mais rapidamente que as aves criadas em liberdade. Assim que as galinhas atingem 16 a 20 semanas de vida, são colocadas em gaiolas com 432 cm2 (tamanho de uma folha A4 – Foto 3) em galpões totalmente fechados nos quais durante 2 a 3 semanas as luzes são diminuídas ou apagadas totalmente 24 horas por dia. Paralelamente, é fornecida uma alimentação pobre em proteína, na qual as aves chegam a passar fome. Depois desta fase, as luzes passam a ser acesas diariamente por períodos de 16 a 20 horas e a dieta passa a ser rica em proteínas, fazendo com as galinhas pensem que é primavera e comecem imediatamente a botar ovos. Desta maneira, o homem consegue fazer com que as galinhas façam a postura de ovos durante o ano inteiro. Vale lembrar que o comportamento natural de qualquer galinha, quando solta na natureza, é ciscar, bater asas, esticar asas e pernas, voar a pequenas alturas do chão, se empoleirar e construir ninhos para botar e chocar. Uma galinha poedeira ou de corte não consegue expressar nenhum destes comportamentos naturais, nem mesmo andar.

Foto 3

Aves de postura são diferentes de aves de corte. Desde 1946 a Indústria Aviária, com ajuda do USDA, investe em genética. Por meio de melhoramento genético, as aves de corte foram selecionadas para possuírem aptidão para ganho de peso e conformação de carcaça, enquanto que as galinhas poedeiras são selecionadas para produção de ovos. Portanto, não é economicamente viável utilizar aves de postura para corte e vice versa. Então o que é feito com os machos que nascem em criações de aves de postura, já que estes nem botam ovos e nem têm aptidão para ganho de peso? São descartados, ou seja, metade dos pintinhos que nasce em uma granja de postura é destruída em equipamentos que parecem liquidificadores ou em câmaras de gás ou, simplesmente, jogados no lixo (Foto 4).

Foto 4

Bom, que os animais sofram de forma bem significativa nestes tipos de criação, ninguém duvida. Além do sofrimento físico pela privação de liberdade, alimentos e sol e doenças que proliferam rapidamente em confinamentos, existe o estresse psicológico. Mas, além do sofrimento animal, existem graves consequências destas modificações na vida do próprio homem.

Galinhas criadas em liberdade se alimentam de forragem (capim, verduras), obtendo ômega-3, ômega- 6 e outros nutrientes importantes para sua saúde e a de suas crias. Assim, seus ovos e carne também irão conter os mesmos ácidos graxos, minerais e vitaminas que foram obtidos na alimentação. Estes animais possuem a relação equilibrada de ômega-3 e ômega-6 de 1:1, a mesma relação que é ideal para os seres humanos. Estes ácidos graxos, que são essenciais para nós, não podem ser obtidos de outra maneira, senão pela nossa alimentação.

 O milho, a soja e o trigo, que são utilizados como alimentos principais em confinamentos, são pobres em ômega-3, mas ricos em ômega-6. Desse modo, os produtos oriundos de animais alimentados com grãos chegam a ter a proporção ômega-3/6 de até 1:40. O ômega-6 tem função de facilitar a estocagem de células adiposas (de gordura), promover rigidez de células, coagulação e inflamação. O ômega-3, ao contrário, é muito benéfico, pois acalma as reações inflamatórias de nosso organismo, atua na constituição do nosso sistema nervoso e limita a fabricação de células adiposas. Por que estou falando de ômega- 3 e 6? Porque essa relação foi a que mais mudou na nossa alimentação nos últimos 50 anos, quando se iniciou a epidemia mundial de câncer. Hoje, as pesquisas científicas nos mostram que câncer está intimamente ligado à obesidade, ou seja, acúmulo de gordura em nosso organismo. A inflamação também propicia o desenvolvimento de massas tumorais, já que células cancerígenas dependem da interação com células de defesa do organismo e formação de novos vasos sanguíneos (angiogênese), presentes nas inflamações e que irão nutrir as massas tumorais.

Como vimos, são muitos os motivos que nos levam a pensar 2 vezes antes de comer e/ou comprar um filé de frango congelado, coxas e asas resfriadas, ou uma simples bandeja de ovo. Não se trata de virar vegetariano, mas de fazer as escolhas certas. Para aqueles que moram em cidades de interior como eu, não é difícil comprar ovos de galinhas criadas soltas, carne frango caipira trazido da roça… E para os que moram em capitais, em alguns supermercados são encontrados tanto alimentos orgânicos, quanto produtos animais de criações extensivas (sem o confinamento). Nos Estados da região Sul do Brasil já existem diversas criações de galinhas poedeiras e de corte chamadas “caipira”, que quer dizer galinhas criadas soltas e que se alimentam de capim.

Ao contrário do que pensamos, a maioria dos brasileiros se preocupa com a forma com que os animais de produção são tratados. De acordo com pesquisas de opinião pública realizadas pela Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA), 74% acha que o tratamento dado a estes animais precisa ser melhorado, 80% acredita que os criadores deveriam ser os primeiros a promover o bem estar animal, 60% espera que o Governo aprove leis de proteção a estes animais e 38% gostaria que os veterinários fossem os líderes nesta luta.

E aos mais céticos, temos embasamento científico que comprova a capacidade das aves de sentir, pensar e, consequentemente, de sofrer:

  • “… talvez o mais intrigante seja a capacidade da galinha de entender que um objeto, quando retirado e escondido, continua existindo. Isto está além da capacidade de crianças mais novas.” (Dr. Chris Evans, professor de psicologia da Macquire University)
  • “Descobrimos que as galinhas crescem rápido nas gaiolas… a carne de seus pés cresce em torno dos arames.” (Poultry Tribune)
  • “Com o crescente conhecimento do comportamento e habilidades cognitivas do frango, veio a percepção que o frango não é uma espécie inferior para ser tratado como mera fonte de alimentação.” (Dr. Rogers – University of New England)
  • “Galinhas mostram comportamento social sofisticado. Isto é que forma uma hierarquia. Elas podem reconhecer mais de uma centena de outras galinhas e lembrar-se delas. Elas têm mais de 30 tipos de vocalização.” (Dr. Joy Mench – University of California)

 Referências consultadas:

Foer, Jonathan Safran. Comer Animais. Editora Rocco, 319 p., 2011.

Servan-Schreiber, David. Anticâncer – Prevenir e vencer usando nossas defesas naturais. 2ª edição, Editora Fontanar, 312 p., 2011.

http://www.confinamentoanimal.org.br/fique-por-dentro/pesquisa-wspa.asp

http://www.chickenindustry.com/cfi/intelligence/

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